top of page

VELHOS CAMINHOS CELTAS

Atualizado: 4 de fev. de 2023


Quando era criança o tempo era lento, em tardes passadas ao sol na companhia do meu cão, num mundo entre mundos, a seguir o trilho das formigas e a criar peças de teatro. Nesses momentos, o tempo ficava suspenso e estava tudo exatamente como deveria estar.


À medida que fui crescendo começou a pressa que julguei ser minha, para alcançar as metas e os objectivos. Exceptuando o facto de querer ser mãe, muitas das minhas decisões foram tomadas, ainda que inconscientemente, com base no cumprimento de uma espécie de cartilha de como é que era suposto viver, e, adaptei-me para poder encaixar e ser aceite num mundo estranho, mas belo para mim.


Depois de ter alcançado tudo o que eu julgava que era suposto para me sentir completa, voltaram as questões: Afinal não era isto? O que é viver então? O que é que continua a faltar? e essa sensação de falta traduziu-se numa busca incessante por respostas que revolucionaram o meu mundo interno. Aprofundei os estudos seguindo o fascínio - que nunca me abandonará - pela mente humana e pela espiritualidade o que me levou a desembaraçar estruturas obsoletas e asfixiantes. Mudei de profissão, de estilo de vida e criei projectos na área do desenvolvimento pessoal; conheci lugares e pessoas incríveis, nos e com as quais, vivi momentos de profunda partilha, conexão e magia e aos poucos na minha vida foi emergindo sentido; não obstante a urgência para chegar a algum lugar, e essa procura incessante de penetrar no miolo, no âmago, nos ossos e não parar nunca, continuava lá.


De onde vinha essa inquietação, essa falta, essa carência profunda? Desta vez ainda não tinha alcançado tudo? Como era possível? Até que a vida me levou novamente a uma série de acontecimentos de tal forma desafiantes e dolorosos que pensei em desistir ou talvez começar tudo de novo ou… parar de tentar seja o que fosse. Apenas estar, Ser, ficar parada a embalar a ideia e esperar que ela se renovasse. É isto que uma dor absurda nos faz, chega a um ponto que nos rendemos, o corpo completamente desnutrido começa a morrer, a mente começa a quebrar e: é aí que a porta se abre.










Só me restou mergulhar nas profundezas do rio… nesse mergulho comecei a ter uns vislumbres do que sentia naquelas tardes mágicas, quando era criança; não havia pressa, não havia nada para alcançar, não era preciso fazer qualquer esforço.


O tempo desacelerou e nessa calmaria comecei a tomar contacto com partes de mim que desconhecia, observando que os meus olhos e o meu coração haviam sido fechados por uma mão sombria, aí comecei a entender que partes da minha vida foram passadas num automatismo paralisante, que tinha perdido os meus instintos e os ciclos naturais, subordinada a um ideal que alguém construiu para mim tendo por base a minha condição de mulher.


Séculos de repressão numa sociedade patriarcal que nos tentou adestrar e nos foi retirando a força anímica. Afastadas, silenciadas, fechadas em casas, conventos e manicômios pelos constrangimentos causados pelas nossas possessões histéricas. Castigadas afinal, por essa beleza de sentir intensamente e dizer as verdades de uma forma extravagante.


E neste adestramento ficámos cegas, vazias, desnutridas, com os sistemas de alarme interiores colapsados e nessas condições a psique ingénua recusa o conhecimento interior, e, tal como um cordeiro manso e inexperiente não sabemos reconhecer os predadores traficantes de ilusões e êxtases psíquicos, e nesse então somos caçadas num piscar de olhos.


Entre o predador e a presa existe uma dança psíquica através do olhar, uma presa é facilmente identificável por esse orbitar desabrido, pelos movimentos e pelo tremor que alastra no seu corpo, tomada pela identificação com esse encontro vivido à flor da pele. A presa coloca-se numa posição de submissão ante o predador e ela própria escolhe o seu destino. Não há vítimas.


Sabemos no entanto, que é sempre possível recuperar os instintos, essa vontade indomável que nos habita nunca morre; para o confirmar basta que olhemos para todas as mulheres que sobreviveram apesar de toda a degeneração e atrofio dos seus instintos mais profundos. Vê-las assim aparentemente expiradas e como por magia, continuaram a curar e a ser as mães do mundo.


Neste mergulho profundo, o tempo continuou a desacelerar e cada vez mais fui abrindo espaço para sentar-me ao lado da minha criança em tardes de sol sem esforço. Descobrindo a beleza e a força que existe na solidão e na quietude, pacientemente juntando o meu cerne, a cerzir os fios e a cuidar da pele, fui regressando lentamente a casa; recuperando um lugar e uma dignidade que há muito havia esquecido.


Sofia Pérez

Terapeuta, Autora, Professora

4 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page